Sem conseguir atrair outros partidos para sua candidatura ao Palácio do Planalto, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) anunciou nesta quarta-feira (5/8) que terá o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato ao cargo de vice-presidente em sua chapa.
A escolha surpreendeu, já que Gaspar não aparecia entre os cotados. Além disso, havia expectativa de que a chapa seria composta por uma mulher, na tentativa de reduzir a rejeição feminina a votar em Flávio.
No entanto, o deputado foi a solução encontrada após grandes partidos da direita, como PP e Republicanos, não fecharem apoio à candidatura de Flávio.
Ambos prefeririam manter a neutralidade na corrida presidencial, devido a divergências internas e ao foco principal nas disputas estaduais e na eleição para o Congresso Nacional.
O nome preferido do candidato do PL para concorrer em sua chapa era o da senadora Tereza Cristina (PP-MS), nome forte do agronegócio.
Outro nome cotado era a economista Daniella Marques (Republicanos), que presidiu a Caixa no governo de Jair Bolsonaro. As duas estavam presentes no evento em que Flávio divulgou quem seria seu vice e discursaram antes de o nome de Alfredo Gaspar ser anunciado.
Gaspar foi relator da CPMI do INSS, comissão parlamentar que investigou desvios nos benefícios de aposentados e pensionistas. Seu relatório final pediu mais de 200 indiciamentos, incluindo a prisão preventiva de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha. O relatório, porém, foi rejeitado pela CPMI.
Segundo deputado mais votado de Alagoas, ele já foi procurador-geral de Justiça e secretário de Segurança Pública do Estado no governo de Renan Filho (MDB), filho de Renan Calheiros (MDB). Bolsonarista, depois rompeu com o clã devido à sua aliança com Lula.
“É uma pessoa que eu aprendi a admirar, todos vocês aqui aprenderam a admirar pela coragem, pela honestidade, pela sua história a frente da segurança pública”, disse Flávio ao anunciar Gaspar.
“Alguém que já foi promotor de Justiça, chefe de Ministério Público do seu Estado, alguém que enfrentou e defendeu os nossos aposentados na CPI do INSS. Alguém que pediu a prisão do Lulinha porque tinha culpa no cartório”, continuou.
Após ser anunciado, Gaspar exaltou Jair Bolsonaro e prometeu lealdade.
“Eu sou o seu soldado. Alguém simples mas que está pronto pra luta. Alguém que tem boa fé, que sabe o tamanho da responsabilidade”.
“Terei lealdade e gratidão, terei a coragem de enfrentarmos juntos a corrupção, o crime organizado, e essa economia em frangalhos, culpa do que Lula e a equipe têm feito com o país”.
Chapa isolada
Flávio chega para a disputa mais isolado que seu pai em 2022. Naquele ano, quando Jair Bolsonaro tentou a reeleição, teve apoio do PP e do Republicanos. Apesar disso, sua chapa também era puro-sangue, tendo o general Braga Netto (PL) como candidato a vice.
Lula tenta a reeleição com seu vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB). O petista entra na disputa com apoio de sete siglas de esquerda: além de PT e PSB, estão na coligação Rede, PV, PSOL, PcdoB e PDT.
Em 2022, o petista tinha apoio de dez partidos, mas o perfil era semelhante, com predomínio da esquerda. Na ocasião, estavam na coligação os mesmos de agora, com exceção do PDT, e havia também o apoio de Solidariedade, Pros e Agir.
‘Vice com cara de Centrão’
Para o cientista político da Consultoria Tendências Rafael Cortez, Flávio optou por um nome mais associado à política tradicional do que ao bolsonarismo raiz.
Gaspar começou sua carreira política no MDB e passou também pelo União Brasil, antes de se filiar ao PL.
Cortez lembra que outros nomes mais ligados ao bolsonarismo chegaram a ser cotados, como o da senadora Bia Kicis (PL-DF) e da deputada Júlia Zanatta (PL-SC).
A escolha também privilegiou um nome do Nordeste, região em que Flávio tem menor intenção de voto contra Lula, segundo as pesquisas eleitorais.
“Dada a ausência de figuras de outros partidos apoiando a campanha do Flávio, que optaram pela neutralidade, me parece que a opção foi mais uma escolha voltada para o mundo político do que por algum sinal importante que essa figura traria do ponto de vista do eleitorado”, analisa.
“Então, o dilema do Flávio era um pouco esse: uma escolha que daria cara de uma campanha bolsonarista, fazer um apelo [ao eleitorado feminino] eventualmente com uma mulher, ou dar uma cara de política profissional, de um nome que traz alguma interlocução com a política tradicional”, continuou.
A cientista política Carolina Botelho, pesquisadora do Laboratório de Estudos Eleitorais, de Comunicação Política e de Opinião Pública da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a escolha de Flávio é consequência da sua dificuldade de atrair siglas fortes da direita para sua coligação.
“Assim como não houve mulher com algum tipo de competitividade que quisesse fazer parte também”, afirma.
Por BBC






