Janeiro Branco: explosão silenciosa da saúde mental leva mais de 169 mil pessoas às UPAs da rede estadual em três anos

Mapeamento da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro mostra aumento expressivo dos atendimentos de 2023 a 2025, com predominância entre mulheres de 20 a 29 anos

Um levantamento inédito realizado pela Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ) revela a dimensão do sofrimento psíquico que tem batido às portas da rede de emergência fluminense. Entre janeiro de 2023 e dezembro de 2025, as 27 Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) de gestão estadual registraram 169.838 atendimentos relacionados a sintomas que demandaram suporte em saúde mental.

Neste Janeiro Branco, mês dedicado à campanha de conscientização sobre a saúde mental, a análise evidencia o volume das queixas emocionais e psicológicas que chegam diariamente aos serviços de emergência. Extraídos do sistema eletrônico de prontuários, os números mostram uma escalada preocupante: 50.624 atendimentos em 2023, 60.058 em 2024 e 64.400 em 2025. Os principais quadros relatados pelos pacientes foram ansiedade generalizada, transtorno do pânico, insônia não-orgânica e estresse pós-traumático.

“Estamos diante de números que expressam o sofrimento vivido por uma parcela significativa da população. Esse cenário precisa ser compreendido com atenção e sensibilidade. Saúde mental é prioridade e precisa ser tratada com a mesma seriedade que qualquer outra condição clínica”, destaca a secretária de Estado de Saúde, Claudia Mello.

Na visão do superintendente de Unidades Próprias e Pré-hospitalares da SES-RJ, Leandro Troncoso, os dados acendem um alerta para a sobrecarga emocional crescente que tem chegado às emergências, evidenciando uma epidemia silenciosa. “Isso pode estar relacionado à cultura das redes sociais, que impõe uma forte autoexigência em relação ao corpo, à felicidade e ao imediatismo”, considera o gestor.

O recorte de gênero e faixa etária mostra um retrato ainda mais sensível da crise. São as mulheres entre 20 e 29 anos que concentram a maior parte dos atendimentos nas UPAs estaduais. Entre 2023 e 2025, houve um aumento de 38% no número de ocorrências neste grupo, passando de 9.075 para 12.549 registros.

No topo do ranking das unidades com maior volume de registros está a UPA Mesquita, na Baixada Fluminense. Quem fica na ponta traz a visão das ocorrências que recebem. Na Zona Norte da capital, a diretora da UPA Ricardo de Albuquerque, Luciana Dias, comenta o perfil dos casos.

“Na unidade, as mulheres jovens são maioria nos atendimentos dessa natureza, com mais frequência para crises de ansiedade, especialmente casos de violência autoprovocada. A falta de segurança, o estresse diário, a sobrecarga de trabalho, as responsabilidades familiares são fatores que contribuem para o aumento das crises de ansiedade e pânico”, destaca a gestora.

O cenário se agrava ao observar o dado específico de lesões autoprovocadas e intoxicações intencionais por medicamentos ou substâncias químicas. Dos mais de 169 mil casos, foram 3.428 atendimentos nas UPAs da rede estadual com esse perfil, durante os três anos. Entre os casos mais graves, cerca de 4.509 pacientes precisaram ser internados para observação. O levantamento aponta ainda seis óbitos nas UPAs relacionados a episódios críticos de saúde mental.

Rede em movimento: capacitação e articulação são prioridades

Para lidar com a crescente demanda e oferecer um atendimento mais eficaz, a SES-RJ tem apostado na formação contínua dos profissionais da rede estadual, como explica o coordenador das UPAs, Vinicius Pacheco.

“As UPAs desenvolvem capacitações internas com o objetivo de aprimorar os atendimentos e qualificar a identificação precoce de pacientes que necessitam de atenção especializada”, salienta o médico.

Além da capacitação técnica, a secretaria também promove reuniões intersetoriais com outras pastas e municípios, com o objetivo de articular a rede de atenção primária com os serviços especializados, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPs). A ideia é garantir suporte contínuo para os casos que exigem intervenção especializada, indo além do atendimento emergencial.

Samu também registra aumento expressivo de casos

Os dados do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), coordenado pela SES-RJ, sob gestão da Fundação Saúde, reforçam a dimensão do problema. De 2023 a 2025, foram 75.892 (40.926 mulheres e 34.966 homens) ocorrências ligadas a transtornos mentais ou comportamentais, o equivalente a 12% dos 639.453 atendimentos realizados neste período na capital fluminense.

O número vem crescendo ano a ano. Em 2023, foram 21.856 (11.424 mulheres e 10.432 homens). Já em 2024, os registros do Samu apontaram 26.590 (14.508 mulheres e 12.082 homens) registros neste perfil. Em 2025, a marca de 27.446 (14.994 mulheres e 12.452 homens) ocorrências relacionadas a transtornos mentais ou comportamentais.

A coordenadora-geral do Samu, coronel Bárbara Alcântara, destaca o preparo contínuo da equipe para lidar com esse tipo de situação. “Para um atendimento qualificado, há capacitação periódica dos socorristas abordando condutas técnicas e humanizadas ligadas a esse tipo de ocorrência”, afirma.

O Samu, por meio do Núcleo de Educação Permanente (NEP), implementou um grupo de trabalho para a capacitação em emergência em saúde mental. Além dos profissionais de saúde, os 440 condutores das ambulâncias também já receberam treinamento específico para casos neste perfil.

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Theo Vieira
Pós graduado em História do Brasil pela Universidade Candido Mendes e Graduado em Comunicação Social, com habilitação para Jornalismo, pela Universidade Veiga de Almeida. Atua como jornalista e apresentador dos programas “Super Manhã” de Segunda a Sexta das 5h às 07h e o “Sabadão da Nossa Rádio”, todos os Sábados de 09h ao meio dia, pela Nossa Rádio FM.