R$ 1,08 bilhão em um ano: A folha mais cara do país. Câmara do Rio lidera gasto com pessoal entre 338 cidades

A Câmara Municipal do Rio de Janeiro é a que mais gasta com pessoal entre todas as câmaras do Brasil. Foram R$ 1,08 bilhão nos 12 meses encerrados em agosto de 2026, somando servidores ativos, aposentados e pensionistas, segundo o Relatório de Gestão Fiscal que a própria Casa enviou ao Tesouro Nacional. O valor equivale a quase R$ 3 milhões por dia — o maior desembolso com folha de pagamento do Legislativo municipal brasileiro.

O levantamento, feito a partir da comparação dos relatórios das câmaras de 338 cidades com mais de 100 mil habitantes, coloca a capital fluminense à frente de São Paulo, que gastou R$ 952,2 milhões no mesmo período, e de Belo Horizonte, com R$ 361 milhões. A liderança se repete no ano fechado de 2025: R$ 1,04 bilhão no Rio, contra R$ 919,7 milhões na capital paulista.

O que está dentro da conta

Do total de R$ 1.080.797.197,96, os servidores ativos responderam por R$ 674,6 milhões — sendo R$ 510,7 milhões em salários, subsídios e vantagens e R$ 164 milhões em encargos patronais. Os outros R$ 406,1 milhões, equivalentes a 38% do gasto total, foram pagos em aposentadorias, de R$ 316,3 milhões, e pensões, de R$ 89,9 milhões.

O peso dos inativos é o que explica a vantagem carioca sobre São Paulo. A Câmara paulistana tem 55 vereadores, quatro a mais que a do Rio, e uma população 1,8 vez maior. Mesmo assim, gastou R$ 128,6 milhões a menos no período. A diferença está nas aposentadorias e pensões: R$ 406,1 milhões no Rio, o dobro dos R$ 205,5 milhões pagos em São Paulo. Considerando apenas os ativos, a capital paulista gasta mais: R$ 746,7 milhões, contra R$ 674,6 milhões.

Os números por vereador e por habitante

Pelo critério da Lei de Responsabilidade Fiscal, que desconta aposentadorias e pensões pagas com dinheiro da previdência, a situação se inverte parcialmente: São Paulo fica à frente, com R$ 809,3 milhões, contra R$ 714 milhões no Rio. Na conta total, porém, a despesa carioca equivale a R$ 21,2 milhões por vereador e R$ 160,58 por habitante — o dobro dos R$ 79,98 da capital paulista.

Entre as 12 capitais com mais de 1 milhão de habitantes que têm câmara municipal, a do Rio tem a maior despesa total. O gasto por habitante fica atrás apenas do de Porto Alegre, que registra R$ 173,87. Considerando apenas os servidores ativos, o desembolso carioca, de R$ 100,23 por habitante, é o quinto maior do grupo.

Salários menores que em 2020, encargos maiores

Descontada a inflação, os salários, subsídios e vantagens dos servidores ativos caíram 11% desde 2020, último ano antes de Carlo Caiado (PSD) assumir a presidência da Casa: de R$ 583,8 milhões para R$ 519 milhões, em valores de agosto de 2026. Os encargos patronais, por sua vez, saltaram de R$ 35 milhões em 2020 para R$ 149,8 milhões em 2021, mas o crescimento é contábil.

A partir de 2021, o relatório da Câmara passou a incluir a contribuição à previdência dos servidores efetivos, que a prefeitura paga com o próprio orçamento: R$ 110,1 milhões naquele ano. Em 2020, essa contribuição, de R$ 76 milhões, já existia, mas ficava fora da conta da Casa, segundo a matriz contábil enviada ao Tesouro. Com o mesmo critério nos dois períodos, o gasto com ativos caiu cerca de 7,5% já descontada a inflação.

Os aposentados e pensionistas também passaram a aparecer no relatório da Câmara em 2021, depois que a Lei Complementar 178 mudou a Lei de Responsabilidade Fiscal e passou a exigir que cada poder apure a despesa com os próprios inativos, mesmo quando o pagamento fica a cargo de outro órgão.

Dentro do limite legal, mas perto do teto

A despesa está dentro do limite da Lei de Responsabilidade Fiscal. Os R$ 714 milhões calculados pelos critérios da lei — que excluem R$ 366,3 milhões em aposentadorias e pensões pagas com recursos vinculados à previdência, entre outros descontos — equivalem a 1,91% da receita corrente líquida ajustada do município, para um teto de 4,55%.

Quase 2 mil cargos e uma brecha para mais

A lei que reorganizou a estrutura da Câmara, sancionada em setembro de 2023 (Lei 8.058), prevê 875 cargos efetivos, preenchidos por concurso, e 1.122 cargos em comissão, de livre nomeação, já contadas as mudanças feitas em dezembro daquele ano pela Lei 8.214. Quando a lei foi sancionada, 649 dos cargos efetivos estavam ocupados.

Dos cargos em comissão, 1.020 ficam nos gabinetes dos 51 vereadores, 20 em cada um: um assessor-chefe, um consultor, um assessor especial, dois assessores, dois assistentes, seis oficiais de gabinete e sete auxiliares de gabinete. O limite de 20 por gabinete, porém, tem uma exceção: o artigo 52 da lei permite que a Mesa Diretora, por resolução e “sem aumento de despesa”, desmembre cargos em comissão — e, nesse caso, o limite não se aplica.

Uma tabela anexa à lei fixa parcelas de 50%, 40% e 30% do salário-base dos cargos de assessor e assistente: um cargo de assistente, de R$ 5.251,32, pode virar até três de R$ 1.575,39. O mesmo artigo sugere que há gabinetes com mais de 20 comissionados, já que um de seus parágrafos limita a 20 por gabinete os que podem receber o Reembolso Educação. O relatório enviado ao Tesouro não informa quantos servidores a Câmara tem ao todo.

Professores e guardas municipais nos gabinetes

A Câmara também recebe servidores da prefeitura. De julho de 2018 a setembro de 2026, o Diário Oficial do município publicou ao menos 139 atos que colocaram 124 servidores municipais à disposição da Casa. Em 118 deles, o salário do cargo de origem continua a ser pago pela prefeitura: os atos dizem que a cessão é “sem ônus” para a Câmara, “com ônus” para a prefeitura ou “sem prejuízo dos vencimentos”.

Entre os cedidos estão ao menos 39 professores e 26 guardas municipais, além de agentes administrativos, engenheiros, enfermeiros, médicos e uma merendeira. Atos de fim de cessão mostram que até garis da Comlurb estiveram cedidos à Casa. Em ao menos 86 atos, o destino é o gabinete de um vereador; em 78, o servidor foi cedido para ocupar um cargo em comissão ou função gratificada; em 21, apenas para “exercer suas funções” na Casa, sem cargo.

Na atual legislatura, iniciada em janeiro de 2025, foram ao menos 21 novas cessões, entre elas as de oito professores e sete guardas municipais. No mesmo período, 65 cessões foram encerradas, 38 delas em janeiro de 2025, com a troca de legislatura. Os números são um piso, porque dependem do que a busca no Diário Oficial alcança.

Fora da conta: terceirizados e auxílios

Parte de quem trabalha na Câmara não entra na despesa com pessoal. Contratos registrados no Portal Nacional de Contratações Públicas mostram que a Multiply Serviços de Manutenção tem três contratos com a Casa, que somam R$ 35 milhões: R$ 13 milhões, de abril de 2026 a março de 2027, para limpeza, ascensoristas, motoristas, copeiros, auxiliares de serviços gerais e garçons; R$ 14,8 milhões, de agosto de 2026 a agosto de 2027, para operar a Rio TV Câmara; e R$ 7,2 milhões, por dois anos, para recepção e cerimonial.

Outras empresas têm R$ 3,9 milhões, por dois anos, para bombeiros civis, e tiveram R$ 1,3 milhão, de dezembro de 2024 a dezembro de 2025, para vigilância patrimonial. A investigação da GloboNews e do RJ2 também revelou que, em abril deste ano, vereadores do Rio gastaram cerca de R$ 7,4 milhões por mês com gratificações especiais — recorde apontado por especialistas como falta de transparência.

Também ficam fora da conta os auxílios pagos aos servidores, lançados como custeio. Em 2025, segundo a matriz contábil enviada ao Tesouro, a Câmara gastou R$ 39,3 milhões com auxílio-alimentação, R$ 26,2 milhões com auxílio-transporte e R$ 50 milhões com outros benefícios assistenciais: R$ 115,5 milhões no total. Pela lei de 2023, alterada em 2025, cabe à Mesa Diretora conceder esses auxílios, além de auxílio-saúde, reembolso de educação e adicionais como o de Dedicação ao Legislativo.

O outro lado

Procurada, a Câmara do Rio não se manifestou até a publicação desta reportagem sobre os números do levantamento. Os dados utilizados são os que a própria Casa envia ao Tesouro Nacional por meio do Relatório de Gestão Fiscal e da matriz contábil do município.

Biografia: Carlo Caiado

Carlo Ferreira de Caiado Castro é o presidente da Câmara Municipal do Rio de Janeiro desde janeiro de 2021. Formado em Administração, com especialização em Políticas Públicas, construiu sua trajetória na gestão municipal: foi subprefeito da Barra e de Jacarepaguá e administrador regional do Recreio, bairro onde nasceu politicamente. Exerceu mandato como deputado estadual e está na sexta legislatura como vereador da capital, tendo ocupado os cargos de segundo-secretário, vice-presidente e primeiro-secretário da Casa antes de assumir a presidência. Reconhecido pela articulação com o Executivo municipal e pela condução dos trabalhos legislativos em um dos períodos mais desafiadores da história recente do Rio, Caiado comanda uma gestão que revisou a estrutura administrativa do Legislativo carioca e manteve a Casa funcionando dentro dos limites fiscais estabelecidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal, em meio ao ano eleitoral de 2026.

Por Ultima Hora

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O jornalista Juarez Volotão apresenta o Programa “Falando Francamente Com Você”, de segunda a sexta, às 7h e 30 na Nossa Rádio 102,5 FM e também escreve para O Dia Búzios.