MERCADO DE VINIL CONQUISTA NOVAS GERAÇÕES E FORTALECE CADEIA DA ECONOMIA CRIATIVA NO RIO

O mercado de discos de vinil vem ganhando novos públicos e movimentando uma cadeia que vai muito além das lojas especializadas. Artistas voltaram a lançar trabalhos no formato, colecionadores mantêm o hábito de garimpar edições e pessoas que cresceram ouvindo música por streaming começaram a incorporar os LPs ao dia a dia. No estado do Rio, esse movimento reúne comércio, produção de conteúdo, colecionismo e iniciativas culturais, atividades que fazem parte da economia criativa.

No estado, a economia criativa é contemplada pela Lei nº 8.353/2019, que instituiu o Programa de Incentivo aos Polos de Economia Sustentável, Circular e Criativa (PESCC). A norma considera como parte desse setor atividades ligadas às artes, incluindo a música, e prevê ações de incentivo ao desenvolvimento de empreendimentos, à geração de negócios e à realização de eventos, feiras e outras iniciativas culturais.

Para Adonai Elias, proprietário da loja Discos do Elias, a procura por vinis começou a dar sinais de que havia espaço para novos negócios antes mesmo de ele abrir as portas. Colecionador há dez anos, ele conta que, desde 2016, amigos o procuravam para encontrar discos, pedir ajuda com equipamentos ou simplesmente pedir indicações. “Eu percebo que vários compradores, principalmente os novos, têm dificuldade de achar uma loja com uma boa curadoria, que não seja empoeirada, pratique bons preços e bom atendimento, por isso vi uma oportunidade no setor”, explica.

O vinil como experiência

A experiência, segundo Adonai, é justamente uma das razões que diferenciam o vinil do consumo de música por streaming. Adonai contesta a ideia de que a principal vantagem do formato seja necessariamente a qualidade sonora. Para ele, o interesse está menos em ouvir “melhor” e mais em ouvir de outra maneira.

Comprar um disco implica procurar lojas, conversar com vendedores, conhecer outros colecionadores e descobrir artistas e referências pelo caminho. Há ainda o contato físico com a obra: a capa, as fotografias, os encartes, as fichas técnicas e todos os elementos que acompanham o álbum.

“O famoso ‘ritual do vinil’ também é excelente: procurar um disco da sua coleção, colocar na vitrola, ouvir com atenção, conversar com alguém sobre como encontrou aquele disco, virar para o lado B”, descreve o empresário.

Na própria loja, essa experiência se mistura a outras manifestações culturais. A Discos do Elias funciona dentro da Escola do Absurdo, centro cultural que reúne galeria de arte, clubes de música, cinema e leitura, além de oficinas. A proposta faz com que a compra do disco seja apenas uma parte da experiência.

Um mercado que vai além da nostalgia

A retomada do vinil também não se limita aos colecionadores que viveram a época em que o formato dominava as prateleiras. Artistas de diferentes gerações passaram a lançar ou relançar trabalhos em LP, aproximando o formato de novos públicos.

Adonai cita nomes contemporâneos, como Chico Chico e Luísa Sonza, e artistas que voltaram a ganhar atenção de novas gerações, como Arthur Verocai e Evinha. Para ele, as lojas também funcionam como pontos de encontro entre público e música. “Acredito que as lojas de vinil sustentam parte importante da indústria musical”, afirma.

Além de movimentarem o comércio, ele destaca a geração de empregos, a economia circular e o papel das lojas na identidade cultural e musical das comunidades onde estão inseridas.

Esse caráter de ponto de encontro também é percebido por quem acompanha o mercado pelas redes sociais. O influenciador digital Renan Diniz criou o projeto Correndo Discos, um guia independente de lojas de vinil no Rio de Janeiro.

A relação dele com os discos começou de maneira inesperada, depois da morte de um tio querido, Renan herdou cerca de 300 LPs. Comprou um toca-discos e descobriu ali uma nova paixão. Como já produzia vídeos de culinária, decidiu juntar os dois interesses e passou a produzir conteúdo sobre música e discos.

O guia surgiu de uma necessidade que ele próprio enfrentou: descobrir onde encontrar vinis. Hoje, Renan procura apresentar não apenas os endereços, mas lugares onde o público possa viver uma experiência relacionada à música. “Eu mostro de tudo, mas sempre procuro mostrar lugares com experiência, não só para ir garimpar. Mas que seja prazeroso”, conta.

Renan vê na retomada do formato uma reação a um cotidiano cada vez mais digital. “Estamos fatigados de tanta tela”, resume. O interesse pela mídia física, segundo ele, está ligado também ao reconhecimento do trabalho artístico presente em cada capa e ao próprio ritual de ouvir um disco.

A força do colecionismo

É nesse encontro entre cultura, consumo e experiência que o mercado de vinil se aproxima da economia criativa. O disco é o produto final, mas ao redor dele existe uma rede formada por artistas, lojas, feiras, produtores de conteúdo, designers, colecionadores e espaços culturais.

E a cena não termina na compra. O colecionador pode passar horas procurando uma edição específica, conversar com outros apaixonados, frequentar feiras, descobrir uma loja nova ou transformar a própria coleção em parte de sua identidade.

O jornalista Leonardo Barros começou a colecionar discos em 2017 e hoje reúne cerca de 130 LPs. O garimpo, segundo ele, acontece principalmente em feiras e pelas calçadas do Centro do Rio, onde já encontrou exemplares como Realce, de Gilberto Gil, e Alucinação, de Belchior. Os dois estavam em condições que exigiam restauração, mas foram comprados por valores abaixo dos praticados no mercado.

“Tive que praticamente reconstruir a capa e limpar o vinil com cuidado”, conta.

A coleção também faz parte da rotina de trabalho de Leonardo, a vitrola fica no escritório e costuma acompanhar momentos de escrita e pesquisa. “Cria um clima para escrever, fazer pesquisas e terminar o trabalho de uma forma mais tranquila, além de ajudar na criatividade”, explica o colecionador.

No fim, talvez a força do formato esteja justamente no fato de ele não ser a maneira mais prática de ouvir música. Em um mundo no qual quase qualquer faixa pode ser encontrada em segundos, o vinil exige tempo, escolha e envolvimento.

É um mercado que vende discos, mas também vende e cria experiências. E é justamente essa combinação entre expressão cultural, criatividade e atividade econômica que coloca as lojas e iniciativas ligadas ao vinil dentro de um dos setores que integram a economia criativa fluminense.

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O jornalista Juarez Volotão apresenta o Programa “Falando Francamente Com Você”, de segunda a sexta, às 7h e 30 na Nossa Rádio 102,5 FM e também escreve para O Dia Búzios.