“Um objeto tem história e memória. Quando ele circula, é como se estivesse reivindicando a permanência dele no mundo”. É assim que a redatora de marketing Marina Barroso enxerga peças e objetos que garimpa em brechós. Andar pelas ruas e visitar esses locais é quase um ritual para a jovem, que começou a consumir itens de segunda mão aos 18 anos inicialmente como uma alternativa para economizar e, hoje, aos 27, transformou esse hábito como parte das suas escolhas de consumo consciente.
Com o tempo, a busca pela economia foi ganhando outro significado para Marina. “A mudança não aconteceu da noite para o dia, mas foi um momento onde eu comecei a ser mais consciente sobre as questões ambientais e pensar que realmente queria levar esse hábito adiante. Além disso, quando me tornei vegana, eu comecei a olhar com um pouco mais de atenção para o universo dos brechós”, relata.
A mudança de comportamento de Marina também reflete uma preocupação relacionada aos impactos no meio ambiente causados pelo excesso de resíduos têxteis. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a indústria têxtil é responsável por 2% a 8% das emissões globais de gases de efeito estufa. No Brasil, são produzidas 170 mil toneladas desses resíduos por ano, de acordo com pesquisa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Nesse contexto, a reutilização de vestuários por meio de brechós, bazares e feiras de antiguidades contribuem para reduzir o descarte e influenciar o prolongamento do ciclo de vida dessas peças.
Vestir bem, gastar menos e reaproveitar é mais do que uma tendência cultural e passou a integrar os hábitos de consumo de diferentes pessoas, especialmente entre os mais jovens. Segundo o relatório do Boston Consulting Group (BCG), 32% das peças do guarda-roupa da geração Z são de segunda mão, e 80% desses consumidores afirmam ter descoberto ou comprado uma nova marca por meio desse setor. Inicialmente impulsionado por preços mais acessíveis, o mercado de segunda mão está moldando o futuro da revenda ao reutilizar e prolongar a vida útil de roupas e acessórios, além de ampliar o espaço dos brechós e fortalecer a moda circular.
Para Marina, a internet é fundamental na disseminação dessa cultura ao influenciar novos consumidores e fomentar a curiosidade de quem não sabe como funciona o mercado de segunda mão. “A rede social tem seu impacto. Quando alguém descobre um brechó e divulga na internet, a informação acaba chegando mais fácil nas pessoas”, opina.
Moda circular ganha espaço no comércio
Dona de um brechó na Zona Sudoeste do Rio de Janeiro, Daiane Lima tem 28 anos, mas começou nesse setor há 10, quando as pessoas ainda enxergavam o brechó como opção de compras mais baratas. Hoje, ela diz que percebe uma mudança nesse pensamento. “As pessoas estão procurando peças diferentes, exclusivas e com personalidade, mas também estão mais conscientes sobre o consumo. Comprar em brechó passou a ser uma escolha, não apenas uma necessidade. É uma forma de consumir moda de maneira mais sustentável e, ao mesmo tempo, encontrar peças que tenham identidade”, explica.
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), a efemeridade na indústria da moda preocupa o cenário global. A média de consumo de roupas por pessoa é 60% maior que há mais de 10 anos, com cada peça durando apenas metade do tempo que costumava durar no passado, segundo o órgão. É nesse contexto que o brechó vem na contramão e mostra que uma peça usada ainda tem valor.
“Vivemos em uma época em que as pessoas são incentivadas a comprar o tempo inteiro e, muitas vezes, descartam coisas que ainda estão em perfeito estado. Felizmente eu já percebo que existe cada vez mais gente se questionando sobre esse consumo exagerado”, opina Daiane.
O preconceito ainda é uma das resistências ao consumo de produtos de segunda mão, especialmente roupas, que esbarram em estereótipos e tabus associados ao uso de peças por outras pessoas. Mas, segundo Daiane, existe todo um trabalho por trás, incluindo curadoria e higiene do produto.
“Não é simplesmente pegar uma roupa usada, por exemplo, e colocar à venda. A peça precisa estar em boas condições e, quando necessário, passar por higienização ou reparos. Além disso, às vezes elas precisam de algum ajuste, uma limpeza mais específica e detalhe visual. Eu gosto muito dessa parte porque é como se eu estivesse preparando a peça para começar uma nova história”, expressa a empreendedora.
Quem trabalha diretamente no setor percebe de perto a mudança de perfil dos consumidores. Daiane relata que, ao longo do tempo, o público ficou mais diverso, desde pessoas que procuram peças vintage a quem vai em busca de itens exclusivos. “Eu acho interessante como as pessoas começam a gostar de garimpar nesse processo. O mais legal do brechó é justamente isso: você encontrar algo que parece estar esperando por você”, declara.
Da reutilização à economia circular
A lógica de redução e reaproveitamento de produtos aparece em políticas ambientais aprovadas pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Uma delas determina medidas para redução de resíduos, reutilização, reciclagem, além da própria destinação ambientalmente adequada. Previstos na Lei 4.191/03, esses princípios dialogam com a ideia de prolongar a vida útil dos produtos e priorizar sua reutilização antes do descarte.
Nessa mesma lógica, o esforço para reduzir o descarte dos produtos também está interligada a uma série de diretrizes que fomentam a economia circular, determinadas na Lei 9.072/20. Ela propõe políticas, programas e ações vinculados a atividades emissoras de gases de efeito estufa que deverão incorporar medidas que estimulem a economia circular em suas cadeias de valor, além de ampliar o olhar sobre o ciclo dos produtos e as possibilidades de reaproveitamento e maior circulação.
