DO SUBÚRBIO CARIOCA PARA A HISTÓRIA: A FORÇA DO BAILE CHARME

Todo sábado, o Viaduto de Madureira, na Zona Norte do Rio, se transforma em pista de dança. Ao som da black music, frequentadores de diferentes gerações se encontram para dançar, trocar passos e celebrar uma cultura que atravessa décadas. O baile charme, que faz parte da identidade carioca há mais de 40 anos, é patrimônio cultural imaterial do Estado do Rio de Janeiro, título reconhecido pela Assembleia Legislativa (Alerj) em 2019.

O título valoriza uma manifestação cultural que nasceu e cresceu nos subúrbios cariocas, conquistou diferentes gerações e mantém viva a influência da black music na cultura fluminense. Mais do que preservar uma tradição, o reconhecimento reforça a importância de quem faz o charme acontecer: DJs, dançarinos, produtores e frequentadores que mantêm essa história viva.

Uma história que começou na pista

Antes de se tornar uma referência no movimento do charme, Marcos Aurélio Ferreira, o DJ Corello, era um dançarino apaixonado por black music. No início dos anos 1970, frequentava bailes e sentia falta de uma continuidade entre as músicas. A vontade de não interromper a dança acabou mudando o rumo de sua trajetória. “Eu não me conformava em ter que parar de dançar uma música para entrar no ritmo da outra. Isso me fez virar um DJ”, conta.

Em março de 1980, no Sport Club Mackenzie, no Méier, Corello deu outro passo importante. Em um cenário dominado pelas equipes de som e pela disco music, apostou no rhythm and blues (R&B), com faixas mais lentas e melódicas, que propunham uma dança mais cadenciada. A novidade ajudou a dar identidade ao movimento e popularizou a expressão “charme”, associada ao estilo de dançar. A partir disso, novos DJs e equipes de som aderiram à proposta, e os bailes se multiplicaram pela cidade, consolidando uma cultura que encontrou no subúrbio carioca seu principal território.

Hoje, Corello continua na ativa, com apresentações e uma rádio de black music na internet. Ao longo dessa trajetória, acompanhou histórias de amor, casamentos e famílias inteiras que cresceram ao som do charme. “Há uma troca de gerações interessante. Muita gente namorou, noivou e casou, criou os filhos, e os filhos continuam no charme. Esse é o legado que eu deixo e continuo tocando”, destaca.

Identidade e pertencimento

Para Marcos Olympio, o Kinho do Charme, a aproximação com essa cultura começou nos bailes realizados na antiga sede do Cordão da Bola Preta, tradicional bloco carnavalesco do Rio, na Rua 13 de Maio, no Centro. Foi ali que ele se encantou não apenas com a música e a dança, mas também com a elegância, o estilo e a forma como os frequentadores se expressavam. A identificação foi imediata: o charme se tornou um espaço de liberdade e expressão, no qual ele encontrou uma maneira de afirmar a própria identidade.

A elegância dos movimentos, as roupas escolhidas para cada encontro, os cumprimentos e a maneira como os frequentadores ocupavam o salão compunham um universo que o conquistou por inteiro. “Eu me descobri no charme. Era como encontrar, finalmente, um lugar onde minha história, minha sensibilidade e minha forma de enxergar o mundo podiam se encontrar”, relembra.

A dança passou a ocupar um espaço cada vez maior em sua vida. Vieram os convites para apresentações, as experiências no palco e a certeza de que os passos carregavam também suas próprias descobertas.

Nos dias de semana, Kinho trabalha como cinegrafista da TV Alerj, registrando os acontecimentos do Parlamento fluminense. Quando chega o fim de semana, porém, é hora de trocar as câmeras pela pista de dança e viver de perto a cultura que também faz parte de sua identidade.

A experiência nos bailes, segundo ele, ajudou a desenvolver confiança, liberdade de expressão e uma nova maneira de enxergar a si mesmo e o mundo.

Uma cultura que merece investimento

Já para o DJ Corello, o reconhecimento da Alerj representa uma oportunidade de transformar a valorização simbólica em avanços concretos para o movimento. O DJ espera que a lei contribua para atrair investimentos, garantir espaços adequados para os bailes e ampliar a realização de shows e eventos com artistas nacionais e internacionais.

Ele também chama atenção para uma característica que considera fundamental: o charme é uma manifestação cultural genuinamente carioca, construída por uma comunidade que nem sempre teve o reconhecimento que merece. “Que essa ação da Alerj sirva para colocar luz em cima do movimento pacífico, de dança coletiva, de pertencimento, de autoestima racial. É uma geração que consome, veste moda e não é representada em lugar nenhum”, afirma.

O futuro também dança

Manter o charme vivo significa garantir que novas gerações tenham a oportunidade de conhecer essa história, aprender seus passos e encontrar nela formas de expressão e identificação.

Para Kinho, a continuidade do movimento está justamente na capacidade de acolher quem chega, transmitindo não apenas a dança, mas também os valores e as experiências que fazem parte dessa cultura.

A lei da Alerj reconhece, assim, uma manifestação que já ocupa um lugar especial na memória afetiva de milhares de cariocas. E, se depender de quem mantém o som, os passos e a pista em movimento, essa história ainda tem muitos capítulos pela frente.

Porque, no charme, a música pode até mudar, os passos podem ganhar novas formas e as gerações se renovar. Mas a essência permanece: a pista é de todos, e ninguém precisa dançar sozinho.

 

Compartilhar

Facebook
WhatsApp
Email

O jornalista Juarez Volotão apresenta o Programa “Falando Francamente Com Você”, de segunda a sexta, às 7h e 30 na Nossa Rádio 102,5 FM e também escreve para O Dia Búzios.