No dia 14 de janeiro, publiquei aqui a coluna “Quando o IPTU vira surpresa: a taxa do lixo e o peso de governar pelo boleto”. Naquele momento, fizemos alertas claros. Dissemos que embutir a taxa do lixo no IPTU, sem diálogo e sem transparência, traria revolta, insegurança e sensação de injustiça.
Infelizmente, o tempo confirmou o que já era previsível.
Agora que os carnês estão nas mãos dos moradores de Cabo Frio, a indignação deixou de ser argumento político e virou realidade nas casas, nos comércios e nas conversas de rua. São relatos de aumentos expressivos, dúvidas sem resposta e um sentimento coletivo de que o contribuinte foi surpreendido novamente.
O governo pode tentar tratar o tema como mera “adequação técnica à legislação”. Mas a população sente no bolso o que a linguagem burocrática tenta suavizar.
A pergunta que ecoa nos bairros é simples:
se a taxa é para melhorar o serviço, onde está a melhora?
A coleta continua irregular em diversos pontos da cidade. A varrição não atende todas as áreas como deveria. A coleta seletiva ainda não virou realidade concreta. E, mesmo assim, o valor subiu.
Governar é fazer escolhas. E a escolha feita foi aumentar a arrecadação antes de aumentar a eficiência.
Outro ponto que chama atenção é o método. Ao incluir a taxa dentro do IPTU, o governo reduziu a transparência do debate. Muitos moradores só perceberam o impacto quando receberam o boleto. Não houve campanha explicativa ampla, não houve escuta popular efetiva, não houve construção coletiva.
E cabe lembrar: a proposta foi votada nos últimos dias do ano legislativo, entrando em vigor já no início de 2026. Uma decisão apressada para um impacto permanente no bolso da população.
Como oposição responsável, não somos contra organizar a cidade ou cumprir exigências legais. Somos contra a falta de planejamento, contra a ausência de diálogo e contra a lógica de resolver problemas estruturais transferindo a conta para o contribuinte.
A Prefeitura precisa responder com clareza:
Qual foi o critério técnico para os valores aplicados?
Existe estudo de impacto econômico nos bairros mais vulneráveis?
Haverá revisão para casos de distorções?
Qual o cronograma concreto de melhoria do serviço?
A cidade precisa de equilíbrio fiscal, sim. Mas precisa, acima de tudo, de justiça fiscal.
O morador não pode ser tratado apenas como fonte de arrecadação. Ele é pai de família, é trabalhador, é comerciante, é aposentado. Ele já enfrenta inflação, aumento de custos e dificuldades econômicas. Acrescentar uma cobrança sem contrapartida visível é transferir a ineficiência administrativa para quem menos pode reagir.
Reafirmo o que disse em janeiro: cidade não se governa no susto. Cidade se governa com diálogo, transparência e respeito.
E se o governo decidiu pesar a mão no bolso do cabofriense, terá que suportar o peso da cobrança política. Porque quem paga mais, exige mais. E com razão.
Seguiremos fiscalizando, cobrando explicações e defendendo o direito da população de entender e questionar cada centavo que sai do seu bolso.
Respeito ao contribuinte não é favor. É obrigação.






